Publicado em AUTORES E ESCRITORES

A Língua Portuguesa, Fernando Pessoa

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Se determinado efeito, lógico ou artístico, mais fortemente
se obtém do emprego de um substantivo masculino
apenso a substantivo feminino, não deve o autor hesitar em
fazê-lo. Quis eu uma vez dar, em uma só frase, a ideia – pouco
importa se vera ou falsa – de que Deus é simultaneamente
o Criador e a Alma do mundo. Não encontrei melhor maneira
de o fazer do que tornando transitivo o verbo “ser”; e assim
dei à voz de Deus a frase:
– Ó universo, eu sou-te,
em que o transitivo de criação se consubstancia com o
intransitivo de identificação.
Outra vez, porém em conversa, querendo dar incisiva,
e portanto concentradamente, a noção verbal de que certa
senhora tinha um tipo de rapaz, empreguei a frase “aquela
rapaz”, violando deliberadamente e justissimamente a lei fundamental
da concordância.
A prosódia, já alguém o disse, não é mais que função do
estilo.
A linguagem fez-se para que nos sirvamos dela, não para
que a sirvamos a ela.
(Fernando Pessoa. A língua portuguesa, 1999. Adaptado)

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Autor:

PROFESSORA ORIENTADORA DE SALA DE LEITURA-POSL...(Prefeitura do Município de São Paulo)..FUI...

2 comentários em “A Língua Portuguesa, Fernando Pessoa

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